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Diferença entre relativização e contraditório

Desde sempre, jantares e encontros na minha casa, há décadas, são pontos de debates, reflexões e discordâncias sempre muito interessantes. Sempre ao lado de amigos, filhos e convidados, os temas são de todos os gostos: atualidades, história, política, economia, viagens. Conversas deliciosas. Porém, venho notando indícios de que a Relativização dos fatos vem ganhando espaço do Contraditório, uma análise dos fatos, ou melhor, a Relativização tem sido o Contraditório, palavras que, neste texto, escreverei com letras maiúsculas. O efeito imediato é que esses momentos estão ficando chatos e desinteressantes, mas no longo prazo ceifará conversas sobre estratégias e visões. Estamos perdendo a noção da história e a compreensão de fatos que são sistematicamente revistos como nova forma de tumultuar os debates na busca de uma razão a qualquer preço. Tenho essa sensação. Para não cair na armadilha de minha tese, acho sim que muitos fatos e suas interpretações da história podem e devem ser revistos, mas existem fatos que simplesmente são reais. Então, vou exemplificar meu incômodo: Estávamos na mesa em debate sobre o futuro da humanidade e dei minha visão que a humanidade se reinventa sempre na busca da preservação da vida e que o capitalismo se regenera à luz de novos modelos quando eles batem no teto. E que, a meu ver, estamos vivendo esse momento. Sou otimista sobre esse tema, sobre o “novo capitalismo sustentável”. A discussão, que já estava acalorada, esquentou ainda mais quando citei que a humanidade só evoluiu, mesmo com todos efeitos colaterais, e citei fatos como quando o planeta tinha “apenas” um bilhão de seres humanos, o catastrofismo se instalou sobre a capacidade de alimentar tanta gente na época e, para muitos, era dado como certo os milhões que morreriam de fome. Hoje temos 7 bilhões de pessoas e grande parte do problema mundial é a obesidade. Em contraponto, a fome proporcionalmente diminuiu bastante (apesar de ainda persistir). Nesse momento veio a tal da Relativização da evolução da humanidade, que travou a conversa. Como? Perguntei o que era relativo nesses meus exemplos de evolução. Citei o crescimento populacional, a realidade da produção de alimentos em escala e, principalmente, o aumento da expectativa de vida, que na Idade Média era abaixo de 30 e no Brasil, no início do século XX, era de 34 anos. Continuei reforçando que o homem tinha ido à Lua e começava a voltar a explorar o espaço; que a medicina nos deu a penicilina, a cura de doenças etc. No auge da temperatura máxima comecei a ouvir os argumentos do tipo “isso é relativo porque beneficiou pouca gente”, “relativo porque a elite não deixa os avanços serem democratizados”, “relativo pois porque gastar bilhões na pesquisa espacial se o mundo está fritando”, “relativo porque a África ainda é um continente miserável”. Percebi que os argumentos não dialogavam com minhas argumentações e com o tema que estávamos debatendo originalmente. Fato que a idade média aumentou, fato que a medicina teve um progresso maravilhoso e fato que a humanidade se reinventa. De que mesmo estávamos falando? O debate não dito era outro, virou um festim de argumentos táticos e não houve jeito de nos entendermos sobre o que exatamente estávamos debatendo. E todos presentes eram lúcidos, cultos, civilizados. Veio a questão: por que estamos na Sociedade da Relativização em tudo e em qualquer assunto? Em paralelo, também observo uma tentativa desenfreada de revisão da história, que reforça meu olhar e, de novo, com a tal Relativização, como por exemplo a desmistificação de Churchill, de Gandhi, de Abraham Lincoln. Esse olhar se cruza aos “meus jantares” e reforça minha inquietação dos por quês. Não sei ainda por que, e olhe que tenho tese para tudo. Mas me passou pela cabeça algumas respostas sobre o comportamento tão característico da Sociedade Espetacularizada, onde todos têm que entender de tudo, todos devem discordar de tudo, todos devem se passar como cultos e inteligentes, todos têm que falar por falar. Ok, é daí? Por que escrevo sobre isso? Para recuperarmos o Contraditório em cima das mesmas leituras, debater sobre pontos de vista diferentes, em análises diferentes sobre fatos reais. Entramos na era da “Relativização” dos fatos reais, sob um prisma de preferências pessoais e de um sectarismo que volta a ser pauta. Isso está afetando não somente as famílias, grupos de amigos, mas as empresas e a sociedade como um todo, cuja força da democracia e dos avanços estão sempre nas dialéticas e nas teses loucas em cima de fatos reais. Sugiro como leitura as biografias de Steve Jobs e Elon Musk que se encontram na busca de romperem fronteiras do possível graças a compreensão do conhecimento. Eram neuróticos, amavam pessoas que os contradiziam com argumentos, mas eram intolerantes com a mediocridade e com a turma do “não é bem assim”, “isso não foi bem assim”. Sugiro que nesse momento tão complicado não sejamos condescendentes com esse conceito de “Relativização” de tudo, porém firmes no falar e no ouvir das opiniões e fatos “Contraditórios”. Quando perceber esses sinais, meu conselho é: não debata, não se desgaste polemizando, pois isso não levará a lugar nenhum, nem mesmo a uma boa conversa. Porém, siga com os fatos e as análises sobres eles ou, ainda, procure quem faça análises diferentes da sua, para que a dialética o leve para descobrir caminhos a desbravar na superação do impossível.


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