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A vida se reconfigura


Photo by Kevin Grieve on Unsplash

A vida se reconfigura constantemente, descobri isso apenas com 57 anos. Talvez essa descoberta seja porque nessa fase em que sou um pré-adolescente da velhice tenho feito mais reflexões sobre a natureza da vida. Reflexivo sempre fui, até demais, e sempre com cabeça de e no futuro. Porém, recentemente, os pensamentos voam para o presente, tentando compreender minhas inquietações. Está na hora de conhecer algumas. Em frente!


Me sinto cada dia mais jovem e cada dia mais velho

Essa dualidade é meu ponto de partida. Olho o entorno e tento entender esse contexto. Ou melhor, meu contexto, que é sempre dentro do cenário como um todo. Me refiro ao mundo, ao meu país, às minhas cidades, empresas, amigos e especialmente à minha família, minha mulher e meus filhos. Comecemos pela idade, ela é opcional? Quando vejo Abílio Diniz, Caetano Veloso, Mike Jagger, tenho certeza que sim. Quando converso com alguns amigos e com alguns jovens, confirmo essa tese. Jovens velhos e velhos jovens. Posso achar que Ferreira Goulart morreu velho? Seria uma heresia, totalmente, em forma intelectual, mais jovem do quase todos os jovens que hoje convivo, carregados de preconceitos, de autossuficiência, atrás de conceitos pseudo "profundos", rasos como qualquer preconceito, danosos para o futuro, sem dúvida.


E o que falta à juventude? Simples: lógica, capacidade analítica e a compreensão do conceito de movimento. O que lhes sobra? Capacidade de manipulação e atualização de tecnologias e a fartura da filosofia em cima do Facebook. Tragicômico. Pena, mas de fato, acho eu, também fui assim. E a vida ensina, por qualquer caminho, pelo bem e pelo mau, e em especial para quem quer aprender. Esse pensamento é velho ou estou na frente do meu tempo? Só o tempo dirá.


Amigos? Muitos.

Esse conceito pra mim sempre foi estanque e sólido: amigo é amigo em qualquer circunstância. Porém, ou mudou o conceito de “qualquer circunstância”, ou mudaram alguns amigos. Na minha trajetória, construí sistematicamente muitos novos amigos, a ponto de concluir que os antigos sempre são os melhores. Correto? Sim e não. A vida vem aprontando. Amigos que passam a te desprezar por motivos indecifráveis. Ciúmes? Loucuras? De fato, não em cima de motivos aparentes. Pois tenho a certeza de que assuntos aparentes, por mais difíceis que sejam, caem no quesito: amigo é amigo em qualquer circunstância. Amigos novos, se de fato são amigos, significa que “startaram” em sua vida uma troca de confiança e admiração e podem sim entrar no “Pantaleão dos Amigos”.

Então, amizades firmes não são eternas? Sim e não. Vejamos casais que temos intimidade e que conhecemos como “casais”. Quesito esse que ao longo da trajetória da vida vive constante reconfiguração. Hoje, dificilmente as pessoas têm apenas um casamento. Então, estamos ficando calejados, mas nunca realmente preparados para o momento da escolha. A sabedoria é seguir com os dois de forma separada. Porém, em toda separação esgarça-se uma teia de proteção em minha emoção.


No mundo do trabalho, a chapa esquentou

A rotação aumentou, paredes ruíram, tudo mudou. Do conhecimento às profissões, dos códigos à cultura empresarial. Looping constante. Nesse ponto, compartilho algumas filosofias que adotei: tenha poupança, recomece sempre, arrisque, nunca pare de estudar, troque de carreira, nunca pare de trabalhar. Mas vale um aviso: não será nada fácil. Portanto, deixo também um conselho. Não sofra. O anormal será o normal. Se entender isso, fará tudo com naturalidade.


Cidades serão países

A reconfiguração de raciocínio nesse quesito, é que ao terem que decidir por um lugar para morar, estudar, trabalhar ou viver, as pessoas optam por cidades, e não mais por países. A dialética muda. Escolherei entre Londres e São Paulo, e não mais entre Brasil e Inglaterra. Ganharão o jogo cidades que tiverem populações que a construam diariamente, que lutem para melhorá-las em todos os quesitos: mobilidade, segurança, educação, lazer, cultura, oportunidade de trabalho. Não importará se sua escolha será entre pequenas, médias e grandes cidades. Todos esses fatores vão contar.


Empresas, empregos, empreender

Aqui de fato existe uma revolução provocada pelos avanços da tecnologia que de imediato desregulamenta um monte de coisas. Envelhece legislações, configura novos ambientes, cria novos mundos nos quais você será gestor de si mesmo. Não que no passado não se pudesse pensar assim. Mas a diferença é que hoje não existe mais escolha. É isso, ponto! Ainda vemos alguns jovens buscando estabilidade, mas talvez seja a última geração que pense assim. Acabará, graças a Deus, essa estabilidade dos empregos públicos. Nada mais será estável. O que não significa que os bons movimentos continuarão a ter boas estratégias. Essa compreensão me leva a dois sentimentos. Por que não comecei antes a empreender? E, ainda bem que comecei a empreender aos 57 anos, um pouco mais experiente. Que medo...


Nosso complexo Brasil

A reflexão anterior me leva ao Brasil, tão complexo que se torna impossível defini-lo. Ou melhor, as definições mudam a cada texto. Uma coisa não muda: somos um povo resiliente, sobrevivente, descrente e esperançoso. Nesse quesito, minha ressignificação é a compressão que faço do meu país. Ele começa em mim, na minha casa, no meu bairro, nas minhas crenças, na minha capacidade de deixar legados em tudo. Das relações, dos exemplos, da capacidade de transformar qualquer coisa em uma coisa melhor. Deixar marcas nas pessoas que cruzamos, que amamos. Assim sempre fui e assim sigo.


Filhos são outras pessoas

E eis que, aos 57 anos, incrivelmente descubro que filhos são outra pessoa. E, nesse exato momento, começa outra etapa de minha vida. Um novo ciclo repleto de dicotomias, recheado de novos conteúdos, irrigado por trocas. Porém, nada muda meu instinto de pai, nada muda o amor incondicional. Muda sim, a sensação de vê-los entrar pelos caminhos da vida sem minha presença ao seu lado. E o melhor sentimento é o momento em que os vejo preparados para abandonar minha dependência. A inversão dessa curva será a minha liberdade do medo de morrer. Filhos, o verdadeiro amor. Simples assim. Amo os meus mais que a mim mesmo. Zero de dúvida.


A grande resposta do possível

Casamento, amor, sexo, amizade, confiança. Tudo isso com a mesma pessoa. Juntos, em um mesmo momento, é sem dúvida a grande resposta do possível a um ceticismo particular. Esse somatório é de fato o amor ou ainda a sua vivência? Não sei, só sei que é maravilhoso. Como consegui? Sorte? Ou essa conquista está na relação direta de você se expor diante de si mesmo, de suas fraquezas, de seus medos? Essas descobertas seguramente me qualificaram para estabelecer escolhas verdadeiras, trocas honestas e me jogar sem medo na descoberta de amar incondicionalmente uma pessoa. Com tudo isso, aos 57 anos, avanço sem querer voltar a tempo algum que vivi. Sigo com o espírito de maratonista. Só que agora não apenas olhando pra frente, mas lembrando do trajeto, olhando para os lados, chorando e sorrindo. E feliz até aqui.


Artigo original publicado em 2017

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