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A velhice é opcional


Photo by Yogurt Yogurt on Unsplash

Em 1990, estava eu então com 30 anos em New York, já cansado, mas claro deslumbrado pela cidade. Era uma noite de domingo de inverno e resolvemos entrar no primeiro restaurante-bar que encontramos para comer. Sentamos. E aí, a surpresa… surpresa? Estávamos nós em um lugar de.... velhos. Terceira idade, melhor idade, e? E? Estava uma farra. Velhos para os meus parâmetros da época, dançando, bêbados, gargalhando e....acreditem: se beijando de língua. Ou como se diz chulamente, se pegando. O fato é que aquilo nunca me saiu da memória. No começo, o estranhamento da estética, depois a reflexão mais profunda de que hoje fronteiras estão se rompendo e essa ninguém sacou. Não existe mais “velhinhos” como eles eram, agora é opcional.

Sim, é verdade, o velhinho pode ser você ou o seu amigo de 30, 40 ou 50 anos. Quer ver? Mike Jagger e Caetano Veloso namoram meninas (de qualquer idade) que todos os homens se inspiram em pensamentos (horrível, né? Mas é). Poderia dizer, MJ e CV “se relacionam” ou “atraem”. Em frente. Abílio Diniz, um fenômeno, com dois filhos nascidos depois dos 70 anos e mais em forma que (provavelmente) todos que aqui me leem. Que disposição. Chico Buarque, sex simbol até hoje, duvida? Pergunte a sua própria mulher ou se você é mulher, sabe do que falo, né? (claro apenas entre nós). João Paulo, meu ex-sogro, pai de quadrigêmeos aos 57. E hoje lindo, em forma, um dos meus melhores amigos. E JP virou um velhinho de 75 anos, avô e aposentado? Hilário só de pensar. E enquanto escrevo, vejo Suzana Vieira posando de biquíni para revista em minha frente, linda. E Fernanda Montenegro, aos 85, mais em forma impossível. Onde quero chegar com essa crônica?

Em alguns lugares, em reflexões de bar apenas, vamos lá:


A velhice é opcional?

Sim, é. Estou convencido. Tenho 56, meu corpo, claro, não tem mais a energia que jogamos fora aos 20. Tenho sim, mais experiência, especialmente o sensor de onde estará a “roubada”, o que é maravilhoso. Minha cabeça está como sempre esteve, ou seja, a 880 km/h, e quando me olho no espelho, às vezes estranho. Sou eu? Sim, diferente, mas sou eu, pensando nesse assunto como nunca.


A estupidez da aposentadoria compulsória.

Vi há anos, também nos Estados Unidos, uma lanchonete onde todos tinham mais (acho) de 70 anos. Caixa, atendentes, chapista etc. Ainda hoje aqui no Brasil essa mão de obra é jogada fora. A fina flor da experiência decantada e com mais energia que muitos jovens. Argumento contrário? Sim, já tiveram sua oportunidade e agora a lei natural da vida, a sucessão. Balela! Mentira! A fronteira da longevidade vem batendo recorde ano a ano. Viram o filme “O Senhor Estagiário”? Assistam e não sejam babacas do tipo blasè: blockbuster americano.


Ditadura jovem

Trabalho com comunicação, portanto em um mercado extraordinariamente jovem, que me faz reciclar todo dia. Mas face ao momento que vivemos nesses últimos anos de crescimentos exponenciais e “revolução” tecnológica-digital, se confundiram e misturaram conceitos errôneos que criaram uma geração que chamo de "curto prazo". Só se pensa no curto prazo e no crescimento meteórico. Pior, “o sistema” achou que era uma “tendência” e com essa crise a conta começa a chegar nas empresas e nas vidas dos curtos prazos. Arrogância tem efeito bumerangue. E o melhor são somente os velhos? Não. O equilíbrio. Ah! Por fim, enxergo um gap de formação louco, especialmente em desconhecimento de um passado recente, que faz parte dessa análise da miopia.


Sexo

Carlos Manga, excepcional cineasta brasileiro das chanchadas há longos anos atrás, me disse quando tinha 70 anos e uma filha de 5: “bobagem, meu filho, pensarem que velho não faz sexo. Isso só depende de você e de seu olhar sobre a vida”. E não existia o Viagra e a família de soluções. Volto a Suzana Vieira. Hummmm…. tem fogo maior que o dela? Talvez igual. Então, mãos a obra… se cuidem… me cuido para “não falhar” (ehehehe) cedo demais nessa vida. E, lembrando, quero ser um dos velhinhos que se pegam!

5. Economia: todos sabem que vivemos na sociedade do boi e da boiada. Traduzindo: uns criam e fazem conceitos e todo a boiada repete sem massa crítica alguma. Exemplo: consolidou-se que mercadologicamente o target gay é excepcional para nichos econômicos, pois “não tem filhos”, “tem grana”, “viaja”, “tem dinheiro”, “não deixará heranças” etc. Tudo certo. Certíssimo! Mas e “os velhinhos”? São tratados como......velhinhos. Viagens? Com a família. Por que não um cruzeiro só de 60+ e uma transgressão acompanhando? Shows pra velhinhos? Só com os filhos fazendo o favor de levá-los, preferencialmente para ver Tony Bennett. Bares? Cidades? Publicações? Sites?


Cinema, a temática sobre velhos: é?

Sobre velhos. Suas amarguras, seu abandono, suas lembranças, seus arrependimentos etc etc..... Por que não sobre a vida, o amor, o sexo e as tramas que evidenciem o amor à vida presente e não evidenciando o passado? Música: chorei ao ver Cauby Peixoto e Bibi Ferreira anos atrás e pensei: “quero ser igual a eles”. Querem fazer sua arte, acho até que exploram a imprensa babaca do "que legal esses velhinhos", “incrível", "última vez" etc. Mas ambos morrerão no palco. Tenho certeza que Deus fará essa benção. Leiam Mario Vargas Llhosa, cada dia mais brilhante em sua literatura, Maria Adair (artista plástica baiana) pintando até você se ficar parado em sua frente. Pierre Verge com sua obra fotográfica preservada de mais 60.000 cromos, um dos maiores acervos “África-Brasil”, trabalhou até os 90 anos, pouco antes de sua morte.


Amor e ficantes

Vejo tanto viúvos, viúvas, solteirões e solteironas batendo lata por aí, a espera da morte, ou melhor, como se já não fosse possível mais relações. Por que? Meu Deus, por que? Porque não existem espaços para encontros, ou pior, não existe espaço nos pré-conceitos. E ser gay ou se assumir nessa idade, tem coisa mais hype? Mais de vanguarda? Ou se sua avó chegar de surpresa de namorado novo ou de namorada? E se ela entrar no Tinder?

Toda essa reflexão é em causa própria, confesso. Afinal, uma venda ou um olhar sobre um apartamento na planta, pode ser: de frente para o mar ou longe da maresia. E como dizia Caetano, “tudo é relativo aos bons costumes do lugar”. E o meu não será nesse mesmo lugar onde estamos.


Em frente.......


Artigo original publicado em 2016

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