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Assédio moral corporativo


Foto: Dylan Gillis em Unsplash

Dia 02 de maio a parte consciente do planeta registrou o Dia Mundial do Enfrentamento ao Assédio Moral. Uma data importante para a luta dos que defendem a vida e a liberdade. Todos conhecem os aspectos nocivos das situações de assédio. Mas ainda não atentamos para a extrema gravidade do assédio que existe entre empresas.


Há um comportamento na relação cotidiana de clientes com agências de comunicação gerando efeitos colaterais perversos no segmento. Infelizmente, já estão na normalidade os exemplos abaixo:

  1. Cliente solicitar, aliás, solicitar não, exigir, na sexta-feira à tarde, um job ou sua correção para a reunião de 2ª às 9h. Ou de um dia para outro, com direito a virada de noite. Sem remuneração adicional, é claro.

  2. Concorrência com 10 agências para um cliente que se dá ao direito de ter a propriedade intelectual do objeto do trabalho de cada uma das agências. Absurdo “triplo carpado”, pois, além da quantidade inexplicável de players, não remunera nem indignamente, muito menos dignamente.

  3. Empresa bilionária, listada em bolsa, ou mesmo uma empresa média pagar a agência em 120 dias. Se fossem apenas as taxas e os valores de remuneração... mas o jogo é mais pesado. A exigência é que a agência financie o cliente, pagando a cadeia dos fornecedores também em 90 ou 120 dias. Ah! Mas a agência tem a oportunidade única de antecipar os recursos com desconto do “custo do dinheiro”. Onde? No próprio cliente. Imoral. Tenho um amigo fotógrafo que recebe sua diária de R$ 1.000,00 ou R$ 1.500,00 em 120 dias. Desumano?

  4. Em pleno século XXI, tratamentos desrespeitosos, com gritos e humilhações nas relações entre os profissionais cliente-agência ou ainda nas hierarquias dentro das próprias agências.

  5. Inexistência de feedback pelo trabalho encomendado ou de concorrências realizadas, com investimento de tempo e recursos por parte das agências.

  6. Encomenda de um trabalho que o cliente sabe que não será executado, ou convite para concorrências, na qual o cliente já tem o vencedor escolhido antes da concorrência começar.

Poderia continuar nos exemplos por páginas. Quem atua nesse mercado se reconhece e sabe que esse é o cotidiano, com casos bem claros ou velados, mas reiterados. Honestamente, todos esses exemplos e tantos outros caracterizam ASSÉDIO MORAL CORPORATIVO.


Sou totalmente favorável ao livre mercado, que gera concorrência, fortalece as relações comerciais e traz inovação e riqueza. Porém, essa visão não pode incluir um contexto no qual grandes empresas oprimem e tornam frágeis as cadeias produtivas do mercado de comunicação, não estimulam a concorrência e contemplam a destruição apenas com propósito de margens sem estratégia de futuro. Esse comportamento volta decepando, como em um efeito bumerangue, a qualidade das entregas e a otimização de preços dos produtos e serviços. Pior ainda, em alguns casos, acarreta gastos extras para ações ou campanhas sem resultados. Tudo virou uma planilha e um prazo, os novos “Ps” do marketing.


A busca neurótica de resultados de curto prazo, com visão apenas no ano em vigor, ou pior, apenas no trimestre (quarter), deixarão a terra arrasada. São as empresas extrativistas modernas, que atuam se justificando pelas práticas de mercado e necessidade de respostas para acionistas. No longo prazo da destruição, normalmente, seus executivos já receberam o bônus e não estão mais lá para justificar as tais estratégias.

Entendo que a verdadeira e plena competição acontece em segmentos da base da economia. É fato que as fusões e aquisições, fruto dos avanços do capitalismo, geraram a diminuição das concorrências reais e também um efeito desproporcional nas relações comerciais com a cadeia de fornecedores. Não sou contra a competição, muito pelo contrário. Minha carreira inteira foi construída nesse ambiente. Alerto e aponto para o que entendo que deva ser o próximo debate do capitalismo moderno: competição sustentável x práticas moralmente aceitas x trabalho.


Recentemente, Ken Fujioka, Ana Paula Cortat e outros profissionais do Grupo de Planejamento, deram uma contribuição excepcional ao mercado, aos profissionais e à sociedade com a pesquisa sobre Assédio Sexual nas Agências e nas relações de profissionais de clientes e agências. Inspirador e importante que esse movimento continue na correção das distorções do segmento, jogadas constantemente para debaixo do tapete.

Existe ASSÉDIO MORAL CORPORATIVO travestido de várias formas. Todas costuradas pelo poder econômico e longe das práticas saudáveis da livre concorrência. É essencial que os profissionais de agências e clientes olhem as práticas ao seu redor e façam essa reflexão, não para julgamentos passados ou exposição de marcas, mas para a construção de novos pactos futuros e melhores resultados para toda a cadeia.


Afinal, o mercado de comunicação brasileiro é um patrimônio do nosso país tanto pela sua contribuição à democracia econômica, quanto pela prestação de serviços de altíssimo nível. Assim penso!


Clique para ver o artigo original (publicado por Meio & Mensagem em 28/05/2019)

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