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A velhice é opcional

Em 1990, estava eu aos 30 anos, em New York, já cansado, mas claramente deslumbrado pela cidade. Era uma noite de domingo e resolvemos entrar no primeiro restaurante-bar que encontramos para comer. Sentamos, e aí a surpresa… estávamos nós em um lugar de velhos. Da terceira idade. Da melhor idade! E? Estava uma farra. Velhos, para os meus parâmetros da época, dançando, bebendo, gargalhando e, até mesmo com beijos de língua. O fato é que aquilo nunca saiu da minha memória. No começo, o estranhamento da estética. Depois, a reflexão mais profunda de que hoje fronteiras estão se rompendo, e essa ninguém sacou. Não existem mais “velhinhos” como eram denominados, agora a velhice é opcional.


Sim, é verdade! O velhinho pode ser você ou seu amigo de 30, 40 ou 50 anos. Quer ver? Mike Jagger e Caetano Veloso, lindos e em total forma. Abílio Diniz, um fenômeno — com dois filhos nascidos depois dos 70 —, está mais em forma que muitos que estão lendo esse artigo. Chico Buarque, sex symbol até hoje, alguém duvida? João Paulo, meu ex-sogro e pai de quadrigêmeos aos 57, até hoje continua lindo e em forma, um dos meus melhores amigos. Enxergá-lo como um senhor de 78 anos, avô e aposentado? Hilário só de pensar.


Enquanto escrevia esse artigo, tinha visto Suzana Vieira posando de biquíni para revista, completamente linda! E Fernanda Montenegro, aos 90, mais em forma impossível! Aonde quero chegar com essa crônica?

Em algumas reflexões de bar. Vamos lá:


  1. A velhice é opcional? Sim, é! Estou convencido. Tenho 59, meu corpo, claro, não tem mais a energia que jogamos fora aos 20. Tenho sim, mais experiência, especialmente o sensor de onde estará a “roubada”. O que é maravilhoso! Minha cabeça está como sempre esteve, ou seja, a 880 km/h. Quando me olho no espelho, às vezes estranho. Sou eu mesmo? Sim, sou eu. Diferente, mas sou eu. Agora pensando nesse assunto como nunca.

  2. A estupidez da aposentadoria compulsória. Vi há anos, também nos Estados Unidos, uma lanchonete onde todos tinham mais de 70 anos: caixa, atendentes, chapista, etc. E hoje? Aqui no Brasil essa mão de obra é jogada fora! A fina flor da experiência decantada e com energia – mais até que muitos jovens. Argumento contrário? Sim, já tiveram sua oportunidade e agora começa a lei natural da vida, a sucessão. Balela! Mentira! A fronteira da longevidade vem batendo recorde ano a ano. Viram o filme “O Senhor Estagiário”? Assistam e enxerguem além de um “blockbuster” americano.

  3. O mercado de trabalho está extraordinariamente jovem, o que me faz reciclar todo dia. Porém, face ao momento que vivemos nesses últimos anos de crescimentos exponenciais e “revolução” tecnológica-digital, confundiram-se e misturaram-se conceitos errôneos que constituíram uma geração que chamo de "curto prazo". Só se pensa no curto prazo e no crescimento meteórico. Pior, “o sistema” achou que era uma “tendência” e a conta começa a chegar nas empresas e nas vidas dos curtos prazos com essa crise. Esse estilo de vida tem efeito bumerangue. O melhor? Velhos? Não! O equilíbrio. Ah! Por fim, enxergo um gap de formação louco, especialmente em desconhecimento de um passado recente, que faz parte dessa análise da miopia.

  4. Carlos Manga, já descansando lá em cima, excepcional cineasta brasileiro das chanchadas, há longos anos atrás, me disse quando tinha 70 anos: “bobagem, meu filho, pensarem que velho não faz sexo. Isso só depende de você e de seu olhar sobre a vida”. E não existia o Viagra ou outras soluções medicinais. A chave para época – e até hoje – é se cuidar, praticar exercícios e ter uma vida saudável. E, se lembre: quem não quer ser um dos velhinhos que se pegam?!

  5. Todos sabem que vivemos na sociedade do boi e da boiada. Tradução: uns criam e fazem conceitos, e toda a boiada repete sem massa crítica alguma. Um exemplo disso é a consodalidação mercadológica de certos nichos econômicos, como produtos de beleza feitos especificamente para a população masculina. Tudo certo. Certíssimo! E agora também está na hora de olharmos para as pessoas mais velhas. Parar de tratarmos apenas como velhinhos. Viagens? Com a família. Por que não um cruzeiro só de 60+ e uma transgressão acompanhando? Shows pra velhinhos? Só com os filhos fazendo o favor de levá-los, preferencialmente Tony Bennett. Bares? Cidades? Publicações? Sites? Esse é um nicho que precisa ser melhor trabalhado.

  6. A temática sobre velhos no cinema, em sua maioria, retrata suas amarguras, seu abandono, suas lembranças, seus arrependimentos etc. Por que não sobre a vida, amor e sexo? Tramas que evidenciem o amor à vida presente, e não evidenciando o passado? Em relação à música, chorei ao ver Cauby Peixoto e Bibi Ferreira anos atrás, e pensei: “quero ser igual a eles”. Pessoas excepcionais que fizeram sua arte, e morreram no palco fazendo o que ama! Tenho certeza que Deus fará essa benção. Leiam Mario Vargas Llhosa, cada dia mais brilhante em sua literatura, e Maria Adair (artista plástica baiana), pintando até você se ficar parado em sua frente. Pierre Verge com sua obra fotográfica preservada de mais 60.000 cromos, um dos maiores acervos “África-Brasil”, trabalhou até os 90 anos, pouco antes de sua morte.

  7. Amor e ficantes: vejo tanto viúvos, viúvas, solteirões e solteironas batendo lata por aí, à espera da morte, ou melhor, como se já não fosse possível mais relações. Por quê? Meu Deus, por quê? Porque não existem espaços para encontros, ou pior, não existe espaço nos pré-conceitos. E ser gay ou se assumir nessa idade, tem coisa mais hype? Mais de vanguarda? Ou se sua avó chegar de surpresa de namorado novo ou de namorada? E se ela entrar no Tinder?

Toda essa reflexão é em causa própria, confesso. Afinal, uma venda ou um olhar sobre um apartamento na planta, pode ser: de frente para o mar, ou… longe da maresia.

Como dizia Caetano, “tudo é relativo aos bons costumes do lugar”. E o meu não será nesse mesmo lugar onde estamos.


Em frente!

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